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“Álcool e mulheres” – o estigma autoadesivo

“Álcool e mulheres” – o estigma autoadesivo

Opinião de Vítor Dias.

Jeroen Dijsselbloem, o infeliz Presidente do Eurogrupo proferiu recentemente afirmações indignas de alguém que tem a responsabilidade de liderar um fórum internacional no qual só tomam parte governantes de países parceiros, que têm em comum o projeto de construção de uma Europa unida e firme nos seus valores e propósitos, entre os quais se encontra o da moeda única, o euro.
É mais do que natural, que a reação dos povos do Sul da Europa, fosse de exaltada indignação e claríssima reprovação desta falta de nível e total desqualificação de um alto dignatário europeu, que tal como afirmou o nosso Ministro dos Negócios Estrangeiros “está a mais e tem de sair quanto antes”.
 As insultuosas palavras do Sr. Dijsselbloem tiveram apesar do seu caráter ofensivo, a virtude de unir os povos latinos, o povo grego e o irlandês, numa reação em uníssono, rejeitando categoricamente aquilo que não deixou de ser um lapsos linguae de alguém que falou mais com o coração e menos com o cérebro.  
O estigma autoadesivo 
Analisando o assunto à luz dos manuais da diplomacia internacional, é preciso esfriar a cabeça e pensar com alguma serenidade, menos a quente e indo mais ao fundo da questão.
O que o chefe do Eurogrupo fez, foi, nada mais nada menos que expressar-se de uma forma menos cerebral e bem mais emotiva, quer dizer, falou desabridamente o que realmente pensa de nós, revelando o estigma sociopolítico que paira na Europa rica do norte, acerca dos países que de quando em vez “estendem a mão” e pedem a ajuda solidária dos parcimoniosos membros do diretório europeu. Dos donos do dinheiro para quem a Europa é só economia.
Vale a pena pensar mais seriamente no que significa esse lapsos linguae que provocou um vendaval diplomático.
Não tenhamos ilusões, porque essa Europa calvinista onde os orgulhos nacionalistas estão de novo a fervilhar, não consegue entender o Mundo, sem colar adesivos em tudo e todos, para não se esquecer dos estigmas com que se posiciona diante a diversidade.
E para mim, este triste episódio é clarinho como água, porque significa duas coisas muito simples. Por um lado significa que esse ideal de uma Europa unida e sinceramente solidária, capaz de respeitar a diversidade cultural, social e política, numa perspetiva da sonhada Europa dos cidadãos, afinal não passa de uma ficção, ou na melhor das hipóteses, de uma utopia idealista.
Mas o lado mais negativo que o Sr. Dijsselbloem acabou por pôr a nu, é que os países ricos que nunca incorrem em procedimento punitivo por superavit se comportam como se fossem os donos disto tudo.
Ilusões para quê?
Por mais que nos indignemos com esta arrogância, com esta falta de respeito e mau conceito que têm de nós, de todos nós, só há uma forma de nos fazermos respeitar.
E essa forma é darmo-nos ao respeito, ganhando juízo e governar a nossa casa com parcimónia, com sentido de Estado, com responsabilidade e em vez da crispação e da política do faz de conta que está tudo sobre rodas a correr lindamente, dar lugar à política do compromisso de futuro, celebrado em nome das gerações mais jovens e das vindouras.
Um povo que perde a soberania de poder decidir sozinho o que quer fazer de si e do seu futuro, tendo de estender a mão a países, supostamente parceiros solidários e “iguais entre iguais”, que mais cedo do que tarde, nos hão-de atirar à cara que quem pede “esmola” não pode gastar tudo em álcool e mulheres, põe-se a jeito para ouvir coisas destas.
Depois do que passamos nos anos da crise, é injusto e totalmente inaceitável que um líder europeu venha a terreiro, através da trombeta de um dos maiores jornais alemães, colar na cara de todos nós este adesivo, insultando todos os cidadãos, mulheres e homens, que sempre levaram uma vida digna e honrada, trabalhando como desalmados para dar um futuro melhor do que o seu aos seus filhos.
Que isto nos sirva de lição, para não voltarmos a cair na mesma tentação e um dia destes termos de dar de cara com um  Dijsselbloem qualquer e em vez de lhe dizermos umas boas verdades, tenhamos de baixar a cabeça e pôr os olhos ao chão.
A melhor forma dos pobres enfrentarem os ricos e poderosos, de cabeça erguida e olhos-nos-olhos, é não lhes dever nada e não depender deles para o que quer que seja. Nem que seja para comprar cerveja holandesa ou tecnologia alemã, acentuando o nosso deficit e engrossando o seu superavit…
10-Apr-2017 às 12:46, Ana Sofia Silva

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