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“Francisco – desafios à Igreja e ao Mundo”

 “Francisco – desafios à Igreja e ao Mundo”

Opinião de Vitor Dias.

O novo livro de Anselmo Borges é imperdível 
Quando a Helena Rafael da Gradiva me fez chegar às mãos o novo ensaio do Padre e Teólogo Anselmo Borges, confesso que fiquei até empolgado, assim que li na diagonal o índice e a sinopse.
A formulação do pensamento de Anselmo Borges agrada-me de sobremaneira, porque me faz sentir aliviado dos dogmas que me inculcaram desde criança, para toldar a curiosidade natural que impulsiona as perguntas poderosas de quem tem dúvidas e quer saber a verdade das coisas e do Mundo, sem medo de perguntar, sem receio de incomodar ou de interpelar quem não sabe, quem não tem respostas ou não quer responder.
De uma forma desabrida e lúcida, muito lúcida, Anselmo, lança perguntas inquietantes e incómodas, incómodas como é preciso que a própria Igreja as faça.
Ao ler algumas dessas interpelações, lembrei-me de uma conversa que tive com o Dom Manuel Martins, em que ele também afirmava que uma Igreja que não incomoda as consciências não está bem.
Revejo-me e reconheço a afirmação de que “Deus é amor” e nesta acessão, não há nunca qualquer razão para o temor, para terror, para a guerra em nome de Deus, quer dizer, nenhuma guerra, por mais que queiram enroupá-la, será santa…
O caminho, o lugar e o tempo de Deus não são os da guerra, do sofrimento e da morte. São os da Paz, da felicidade e da vida.

Democracia plena ou transitoriedade de cargos na Igreja?
Ao arrepio da lentidão com que a Igreja se adapta aos sinais dos tempos, por via de uma reflexão e compreensão sensível das dinâmicas sociais próprias da marcha do Mundo, o Professor de Filosofia e de Teologia afirma com toda a claridade de pensamento, que os cargos na Igreja deviam ser transitórios e por períodos determinados para evitar a cristalização e o enquistamento orgânico.
O autor não encontra fundamento doutrinário e tão pouco teológico para que o Papa e os bispos permaneçam “ad eternum” nos cargos, elogiando a coragem e a inteligência de Bento XVI, que ao resignar abriu caminho à renovação.

Uma Igreja em mudança 
Percebe-se em toda a linha que Anselmo Borges está com Francisco de corpo e alma, do mesmo modo que está com o Nazareno, porque ambos procuram a coerência de serem consequentes na Fé, na Fé que se funda no Evangelho.
Porventura, muito ao contrário do que alguns dos seus críticos apregoam, quer o Papa Francisco, como este teólogo português que o segue em pensamento e em acção, são mais radicais do que se pensa, na essência do seu Cristianismo. Numa essência que privilegia o amor, a dignidade da pessoa humana e a Justiça, afastando-se tanto quanto possível, da instrumentalização e da coisificação da religião, que claramente lhes subtraem dignidade e autenticidade.

Um ensaio sobre o amanhã 
Este livro é igualmente, a meu ver, um ensaio sobre o futuro da Humanidade. Não sobre um futuro longínquo ou a médio prazo. Mas um futuro que já foi experiência ontem, que já é realidade hoje e que apenas aguarda a hora de se fazer presente amanhã.
Anselmo Borges, de novo, partilha connosco as suas angústias e inquietações, mas também nos coloca sobre alerta, trazendo à colação assuntos tão críticos e complexos como a inteligência artificial, a biotecnologia, a nanotecnologia e o transumanismo    ou o pós-humanismo, lançando chaves de reflexão para debate, baseadas na Fé Cristã, na consideração de que a religião não pode apartar-se deste inevitável diálogo com a Ciência, nos seus ramos onde a exactidão procura ser a norma, mas igualmente nos ramos em que o pensamento, a reflexão e, mormente, a meditação são método.
 A ética é para o autor, uma disciplina da Filosofia que é actualmente chamada à ordem mundial, no sentido de auxiliar a política, diante desafios nunca antes colocados, mas principalmente, face a um futuro de incerteza e desconhecimento, em que a única certeza possível, é a preocupante ideia de que o que ainda não sabemos, simplesmente não sabemos. E de facto, não sabemos o que virá dentro de muito poucos anos, apresentando dilemas éticos, morais e espirituais cuja exigência será incomensuravelmente diferente de tudo quanto a civilização judaico-cristã já enfrentou até hoje, quer em diversidade nas suas problemáticas, como em dimensão humana, social e política.
Das insanáveis questões que atravessaram os séculos dos séculos e chegam aos nossos dias praticamente intactas, Anselmo Borges recupera permanentemente “…as perguntas essenciais, com que o filósofo Ernst Bloch inaugura a sua obra monumental, Das Prinzip Hoffnung (O Princípio Esperança): "Quem somos? Donde vimos? Para onde vamos? O que é que esperamos? O que é que nos espera?". Qual é o fundamento de tudo? A vida, a história, têm sentido, sentido último?...”.
O poder de perguntar é dos mais clarificadores e não raras vezes conduz a serenidade que o conhecimento e a razão também nos podem dar, como acontece quando vamos ao encontro do próximo, do outro, e querendo saber dele, ganhamos a confiança, o respeito e a amizade, fazendo caminho pela Paz.

Reencontro 
"Pensar a fé implica coerência interna da doutrina".
Eis uma das frases que pode proporcionar a qualquer Cristão, que sente o impulso ou a paixão de pensar, de se questionar e de se por em dúvida, um auxílio generoso para o reencontro íntimo com a essência da Fé, sem temer ou entender a busca dessa coerência como ousadia ou desobediência. 
A propósito do lançamento do seu livro, Anselmo afirma em entrevista ao DN da passada terça-feira: 
- “…a Igreja é depositária da mensagem mais humanizadora que conheço: o Evangelho. 
Infelizmente, como bem viu Nietzsche, a Igreja transformou-o muitas vezes, num “Disangelho”, uma triste e má notícia. Francisco não conseguirá tudo, mas o essencial está em marcha: abertura da Igreja às "periferias", um estilo novo de papado: simplicidade, proximidade, humanidade. E, institucionalmente, tolerância zero para pedofilia, transparência no Banco do Vaticano, reforma profunda da Cúria a caminho, não há condenação de teólogos, descentralização no governo da Igreja, passos gigantescos no diálogo entre as confissões cristãs, elogiando Lutero, e também no diálogo inter-religioso, exige que seja a pessoa humana a ocupar o centro da economia e não o deus-Dinheiro, a exortação “Laudato si” sobre uma ecologia integral fará história.
Polémico, sim sem sombra de dúvida. 
Contestado, claro que sim e, sobremaneira, no interior da própria Igreja. 
Incómodo, como não poderia deixar de ser?
Mas apesar de tudo isso que encontramos nos escritos de Anselmo Borges, nunca em momento algum, há sequer um leve lampejo, uma centelha ou simples sopro de dúvida sobre a Fé num Deus de amor incondicional que fez o homem à sua imagem e semelhança, fazendo de cada pessoa humana, de toda a pessoa humana, o seu próprio rosto e dignidade.
Ao ler “Francisco – desafios à Igreja e ao Mundo”, percebemos que Anselmo Borges nunca vacila na Fé, como também não esmorece no seu impulso determinado, inteligente, lúcido e racional de procurar Deus na concretude da realidade humana e na Natureza e de encontrá-lo em todas as dimensões da vida e do Mundo.
É para mim muito claro que ler os textos de Anselmo Borges não dispensa a leitura da Bíblia, pelo contrário, convida e motiva à sua leitura, propondo uma interpretação sem preconceitos ou condicionamentos exteriores à essência da verdade revelada nos quatro Evangelhos.   
Confesso-vos que a leitura deste livro, nos ajuda a firmar com acrescida força interior, a Fé Católica, por isso o recomendo sem reservas mentais ou espirituais.
Neste tempo em que o Papa Francisco vem a Fátima, também recomendo este livro, na consideração de que a sua leitura atenta e sensível nos ajudará a entender melhor quem é Francisco, ao que vem e o que espera de cada Cristão…
08-May-2017 às 12:53, Ana Sofia Silva

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