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Ponto de Leituras

Ponto de Leituras

Opinião Joaquim Jorge Silva.

A Comunidade de Leitores da Biblioteca Municipal da Maia tem em mãos o mais recente romance de Carla M. Soares, “O ano da dançarina” (Marcador, 2017), uma obra que (re)visita Grande Guerra, não tanto como eixo central narrativo mas como ponto de partida para uma história que coloca em paralelo duas tragédias que no seu conjunto, em Portugal, no ano 1918, dizimaram milhares de homens e mulheres: a Grande Guerra e Gripe Espanhola. O título da obra recupera um dos avatares por que ficou conhecida esta epidemia, “Dançarina”. 
A autora, segundo a opinião dos leitores, fala-nos de duas guerras, e da forma como cada uma delas afecta o quotidiano de uma família de classe alta lisboeta. No centro encontramos um médico que, mercê da sua decisão de se alistar no Corpo Expedicionário Português na Flandres, vai estar habilitado para combater os dois tios de maleita, sendo pelas duas afectado. Nicolau é o nome desta personagem peculiar, profundamente humana nas suas virtudes e defeitos, que junta ao voluntarismo das suas acções algum grau de ingenuidade, mesmo que pretende ser mau. 
O livro é clássico na sua estrutura, adoptando um fio condutor cronológico, que percorre grande parte do ano de 1918, dando-nos um duplo quadro: genérico quando se refere aos aspectos históricos da época (Sidonismo, Gripe Espanhola, Grande Guerra, Fátima, entre outros); concreto quando nos convida a entrever o quotidiano da família Lopes Moreira, nas suas dinâmicas e características, no modo como se relacionam e interagem enquanto família. A família é de resto um dos pontos sobre os quais o leitor deve atentar e reflectir, atendendo às diferenças que podem existir entre a época em que a narrativa se desenvolve e a nossa, passados que são cem anos.
A perspectiva feminina existe e foi referenciada pelos leitores notando-se, a este propósito, a intenção da autora em nos dar personagens femininas fortes, activas, instruídas, com pensamento próprio e capacidade crítica, ao mesmo tempo que não perdem o seu lado mais romântico, sempre sujeito a escrutínio crítico por parte do leitor. Figura cimeira, e ilustração do que afirmamos, é a personagem de D. Carolina, matriarca da família e esteio da mesma.
Escrito num estilo realista, alicerçado em diálogos, dá-nos um panorama genérico de como era Portugal, Lisboa e a família Lopes Moreira. A este título trata-se de um livro vivo, com ida dentro (mesmo quando fala da morte). Muitos foram os leitores que afirmaram quase terem-se metido na pele dos personagens. Tudo no livro convoca um olhar atento ao pormenor…
A estrutura do livro é linear uma vez que adopta o viés cronológico, contudo há um curioso circulo nessa aparente linearidade: o livro começa com a guerra e termina com ela, ou melhor com o seu fim. No fim, nada mais é igual: no mundo, em Portugal ou na família Lopes Moreira.
Em suma, estamos na presença de um livro arrojado, ambicioso, capaz de surpreender o leitor de o agarrar, dando-lhe, na sua viagem leitora, motivos para ficar a pensar na vida. A forma como cada um com ele se relacionará será, obviamente distinta, como distinta serão as suas opiniões. A escritora visitar-nos-á para uma conversa amanhã, dia 6 de Maio pelas 15 horas na Biblioteca Municipal da Maia.
09-May-2017 às 10:58, Ana Sofia Silva

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