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Quando o tempo diz ao medico que tempo tem!

Quando o tempo diz ao medico que tempo tem!

Opinião de Ricardo Oliveira e Beatriz Leite da Cunha

Uma das grandes preocupações actuais no capítulo da medicina, prende-se com a preocupação crescente do tempo que o médico dedica a cada um dos seus doentes em ambiente de consulta.

De facto, fruto da incessante preocupação de optimização de registos de controlo, o médico é obrigado a preencher um conjunto de requisitos informáticos antes mesmo de sequer poder olhar para o doente. Mesmo durante o acto da consulta, está completamente “ligado às máquinas”, preso no meio das aplicações que tem de cumprir.

Este dado já foi constatado por muitos, onde se incluem naturalmente os doentes, havendo tentativas sucessivas por parte dos médicos para diminuir o número de utentes por médico, de forma a poder exponenciar os tempos de consulta a tratar doença, e dolência, ambas tão importantes para a saúde plena de qualquer individuo.

Cientes disto, investigadores portugueses publicaram no British Medical Journal um estudo onde demonstrava a média de tempo com que os médicos estão em consulta com os seus doentes nos cuidados de saúde primários. Curioso foi contatar que de entre 67 países Portugal surge em 10º lugar com uma média de 15,9 minutos por consulta. O País melhor colocado apresenta uma média de tempo de consultas de 22,5 minutos, estando no extremo oposto o Bangladesh com uns inacreditáveis 48 segundos por consulta de cada utente!!!

Apesar de não haver consenso quanto ao tempo ideal por consulta - nem pode haver, uma vez que os doentes não são todos iguais, e, portanto, as abordagens têm de ser necessariamente diferentes - houve alguns resultados bem interessantes e que merecem reflexão. Sem surpresa, o menor tempo em consulta condiciona piores resultados em saúde, colocam risco superior de “burn out” nos médicos, e condicionam maior probabilidade de prescrição de antibióticos e de exames complementares de diagnóstico sem motivo aparente.

Associado a este resultado permito-me juntar um outro estudo que mostrava que, em média, os médicos demoram cerca de 20 segundos até interromper o doente enquanto ele se queixa na sua consulta, condicionando assim as queixas iniciais que o trazem à consulta. Neste facto em particular, as especialidades hospitalares estão pior, uma vez que nos Cuidados de saúde primários estão descritos cerca de 30 segundos até a interrupção do doente, embora nada de significativo.

Ou seja, numa profissão que exige contacto humano, carece de empatia, carece de perseverança, carece de atenção, carece de paciência, estamos cada vez mais a assistir à substituição desses valores, por valores de optimização orçamental, que, mesmo não estando na posse de estudos devidamente validados, eu duvido que se transformem em dados objectivos de qualidade de vida e de melhoria em saúde.

É evidente que as reformas são necessárias, e que na saúde essas reformas são emergentes. Contudo, reformas em saúde escritas directamente da secretária não vão dar bons resultados. As pessoas não são números, são pessoas. Indivíduos irrepetíveis que precisam de atenção total, sobretudo em momento de doença.

Por isto, e por tudo o que envolve este fenómeno, pode-se tentar quantificar o tempo, e até tentar impor tempo... Mas haverá sempre tempo que se ganha ou se perde que escapará sempre a qualquer escala de medição... e no fim, é esse o tempo que verdadeiramente interessa.

 

 

Ricardo Filipe Oliveira, Beatriz Leite da Cunha

Médicos;

Doc. Universitário UP;

Lic Neurof. UP;

Mestre Eng. Biomédica FEUP,

Med.ricardofilipeoliveira@gmail.com

Www.ricardofilipeoliveira.com

Não escreve ao abrigo do novo acordo ortográfico.

 

25-Jan-2018 às 10:23, Ana Sofia Silva

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