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Discute-se tanto, mas tanto, quando afinal o que se devia fazer era Paliar!

Discute-se tanto, mas tanto, quando afinal o que se devia fazer era Paliar!

Opinião de Ricardo Oliveira.

Eis que o governo volta a marcar a agenda com um dos seus assuntos (pelos vistos) prioritários: A Eutanásia e Suicídio Medicamente assistido em Portugal.

Desde logo muito se discutiu, com uma grande abrangência de opinion makers, de todos os quadrantes políticos e ideológicos, mas até à data pouco profundos na reflexão e nos conhecimentos acrescentados para a discussão.

Julgo que para se alterar algo, é preciso saber como estamos. Será que alguém conhece a lei actual? Se sim as propostas que se vão avançando têm em conta a bibliografia actual sobre o assunto? Têm em conta a experiencia vivida por outros países onde existe legislação?

Antes de mais torna-se importante conhecer alguns dados demográficos em Portugal. Sabemos que a população portuguesa envelhece a um ritmo avassalador o que tem levantado desafios de uma responsabilidade enorme. No domínio da doença crónica, incurável, muitas das vezes (mas não sempre) associados a este envelhecimento populacional, os principais estudos mostram que cerca de 2 em cada 10 pessoas beneficiam actualmente de cuidado paliativos urgentes, e que este número irá provavelmente dobrar nos próximos 5 anos.

É verdade que a eutanásia em alguns países como a Holanda representa a solução em cada 25 mortes (dados do ano passado), mas não é menos verdade que em países com os cuidados paliativos bem desenvolvidos como são o caso da Reino Unido se assiste a cada vez mais mortes no domicilio, sem sofrimento, e ajudando-a dentro do seu processo incurável a ter alguma qualidade de vida e a aliviar significativamente o sofrimento associado a estas patologias graves que já não padecem de cura.

Na minha opinião, e depois de muito refletir sobre este assunto enquanto pessoa e enquanto médico ma minha prática diária, respeito e sempre respeitarei a liberdade de escolha, por isso toda e qualquer decisão deve ser centrada no próprio. Embora tudo fique um pouco mais deturpado quando a evidência dos países com mais experiência na Eutanásia e Suicídio medicamente assistido mostram falhas na protecção das pessoas mais vulneráveis, quando deveriam ser essas as primeiras a ser protegidos. Mais, estes países, cujas leis são elogiadas pelo seu vanguardismo mostram falhas colossais em monitorizar o cumprimento da mesma. Mas afinal qual o objectivo destas leis? A evidência mostra igualmente que o facto de haver a possibilidade de eutanásia, a taxa de suicídio por outras patologias não diminui! Ou seja, a lei não trás ganhos em saúde nas áreas que tanto se fala.

Curioso é que se fala deste suicídio medicamente assistido como uma morte tranquila, sem complicações, ideia completamente falsa, havendo complicações, podendo inclusivamente falhar. Curiosamente quem beneficia dos cuidados paliativos, segundo um dos últimos estudos publicados no Reino Unido parece ter a vida aumentada, não estando provado qualquer influencia do uso de opiódes no encurtamento da vida dos doentes. A morfina não encurta a vida, sendo um mito que é preciso destruir entre os profissionais de saúde e os profissionais.

Finalmente, e como último dado interessante, não deixa de ser curioso que nos países onde esta legislação é praticada, as referenciações dos cuidados paliativos decresceram de forma significativa o que nos pode deixar perante algumas reflexões humanísticas que podem ser importantes.

Trazer o tema da morte para a opinião publica parece-me pertinente. Muito tenho apregoado com os problemas inerentes à nossa demografia, com a necessidade de revisão de reformas politicas em todos os sectores da nossa sociedade. Confesso que quando se toca neste tema é algo tenebroso, afinal quantos de nós não gostaríamos de beber da fonte da eterna juventude?

A discussão já começou, e tem-se discutido tanto, mas mesmo tanto, que com o tempo que se tem perdido a discutir já estávamos a paliar mais doente, a trazer mais conforto aos que necessitam e repare só a prolongar o tempo de vida com conforto.

É curioso, mas é a verdade… ao falar de morte afinal temos é de falar de vida… em vida com alívio sintomático, e quem sabe com diminuição de algo que muito se recusam em acreditar: da DOLÊNCIA que a doença provoca.

Só quanto estivermos sintonizados com a informação real, completa que existe podemos tomar uma decisão verdadeiramente informada. Dizer num dia que faltam 10 000 camas de cuidados paliativos e no outro lançar o debate da eutanásia é perigoso.

Por isto tudo espero que o debate seja rico, que seja informado e que no fim como os portugueses estão habituados, que seja democraticamente decidido.

(Permita-me apenas o leitor informar que à data em que escrevo ainda não tinha decorrido a respectiva votação no parlamento.)

 

Ricardo Filipe Oliveira,

Médico;

 Doc. Universitário UP;

Lic Neurof. UP;

Mestre Eng. Biomédica FEUP,

Med.ricardofilipeoliveira@gmail.com

Www.ricardofilipeoliveira.com

Não escreve ao abrigo do novo acordo ortográfico.

04-Jun-2018 às 10:00, Ana Sofia Silva

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