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Um relatório pouco primaveril

Um relatório pouco primaveril

Opinião de Ricardo Oliveira e Diogo Magalhães.

A Escola nacional de Saúde Pública em comunhão com o ministério da saúde emitiram um documento que visa conhecer anualmente onde estamos, e para onde vamos em termos de saúde. Tendo em conta a altura em que o mesmo é realizado optaram por chamá-lo de relatório da Primavera. Acontece que as conclusões são habitualmente invernais…

Entre algumas das conclusões que me parecem óbvias, e que até já passaram por este espaço sob a forma de reflexão houve outras que me surpreenderam… e de que maneira!

Efectivamente, mesmo apesar dos sucessivos desinvestimentos no SNS, os portugueses são muito mais gastadores do que a maioria dos europeus. Contudo, e talvez mais grave do que isso, é que a acessibilidade aos cuidados de saúde daqueles cuja situação económica é mais desfavorável mantém-se mais complicada em deterimento daqueles cuja situação económica é mais confortável. Ou seja, parece que aqueles que ganham mais acedem com mais facilidade aos cuidados de saúde públicos.

Em 2016 a OCDE emitiu um relatório que mostrava que a Saúde representa em termos de PIB Português menos 1% que a média dos paises da união Europeia, sendo que o relatório da Primavera perante estes números conclui que se “iniciou uma tendência contrária à da grande maioria dos países da União Europeia. Com isto assistiu-se a um crescimento da utilização por parte dos portugueses dos cuidados de saúde privados, muito provavelmente explicado por uma diminuição do financiamento do SNS “um dos mais baixos da Europa”.

Curioso é que esta transformação se deu após a intervenção a que fomos submetidos na altura do resgate. Antes disso consumia-se a mais, agora… os números não mentem. Mesmo na própria aquisição de medicamentos, Portugal mantém-se como um país onde a sua compra se torna mais cara, quando comparado com outros países.

Parece haver uma clara destruturação quer em termos de barreiras de acesso geográfico, quer em termos de distribuição por classe económica, quer mesmo no preço dos cuidados praticados por área geográfica e mesmo uma clara desadequação entre as expectativas que o doente deposita e aquilo que recebe. Os tempos de espera para consulta em todas as especialidades aumentaram, com também um incremento de consumo por aqueles que têm maiores rendimentos.

Gravíssimo parece ser que 20% dos doentes referenciados morrem antes de aceder aos cuidados paliativos, mas também neste item é preciso ter sorte, pois há locais onde a cobertura parece ser óptima. A rede de Cuidados Continuados não responde às necessidades. Ou seja, apregoa-se investimento politicvo e financeiro quase num ritmo diário, quando na prática o mesmo não existe.

No entanto, e perante um cenário tão negativo, o relatório concluiu que o SNS é altamente eficiente, pois com menos dinheiro investido, menos profissionais, consegue atingir indicadores de saúde que não envergonham a nação… ou seja com menos faz-se tanto ou mais do que nos outros países.

Quanto aos cargos de chefia poe a nu algo que se vai comentando em surdina: a meritocracia tem sido algo esquecida…

Este tipo de relatórios é importante para “fotografarem” o nosso status, para por a nu algumas debilidades, mas também para avaliar o bom que se tem feito em áreas tão diversas. Só podemos avançar se refletirmos, e so conseguimos reflectir se tivermos em nosso poder a possibilidade de avaliar o que se tem feito.

Contudo, e no caso português parece que o Inverno chegou! Se é para ficar, dependo do grau de comprometimento dos intervenientes políticos para com as politicas de saúde.

Chegou a hora de pedir ajuda ao terceiro sector, chegou a hora de assumir a delegação de competências nos municípios, chegou a hora de arriscar, de reformar, de reformular.

Só com este espirito conseguiremos comprometermo-nos com aquilo que os doentes esperam do SNS, educando-os, informando-os, fazendo cumprir direitos e deveres.

A questão crucial, para além da óbvia, passa por saber quais os reais interesses políticos que cada governação terá para poder chegar a tão esperada primavera no SNS.

Enquanto tudo isto não for tido em conta… O inverno perdurará!


 

Ricardo Filipe Oliveira e Diogo Magalhães
Médico Especialista;
Competência pela Ordem dos Médicos em Acupuntura
Doc. Universitário UP;
Lic Neurof. UP;
Mestre Eng. Biomédica FEUP,
Med.ricardofilipeoliveira@gmail.com
www.ricardofilipeoliveira.com
Não escreve ao abrigo do novo acordo ortográfico.

 

06-Jul-2018 às 13:17, Ana Sofia Silva

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