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«A Educação é um investimento no presente para preparar o futuro da Maia»

«A Educação é um investimento no presente para preparar o futuro da Maia»

Nesta entrevista exclusiva ao “Maia Hoje” e ao diário online “Jornal da Maia”, os líderes de informação local, a vice-presidente do município insiste numa Educação mais abrangente e planeada, preocupada em apoiar as famílias e assegurar que as condições económicas «não constituem um obstáculo ao percurso educativo das crianças e dos jovens». A autarca, neste pelouro, gere 33,6 milhões de euros (correspondente a 13,8% do orçamento municipal), mas junta mais 35 Milhões de Euros «acautelados para a requalificação e modernização das infraestruturas Escolares do Concelho». Afirma ter «uma boa base de trabalho», mas garante não estar acomodada «trabalhamos todos os dias para construir gerações com futuro», diz.

Emília Moreira dos Santos, Vice-Presidente da Câmara Municipal da Maia e Vereadora da Educação e Formação Profissional, assume a liderança de uma das áreas estratégicas do Município. Num concelho que afirma a Educação como prioridade de investimento e desenvolvimento, o arranque do ano letivo 2026/27 é marcado pela continuidade da aposta na requalificação da rede escolar, na inclusão e no sucesso educativo, bem como pela abertura do novo Campus de Formação Profissional.

A autarca aborda ainda os principais desafios da Educação no concelho e apresenta as prioridades para os próximos anos, desde a requalificação das escolas e a promoção de percursos educativos mais inclusivos e diversificados, ao reforço da ligação entre educação, formação e tecido empresarial.

Refere que a estratégia assenta numa visão abrangente da Educação, entendida como responsabilidade de toda a comunidade e como um processo que acontece dentro e fora da escola. Enquanto Cidade Educadora e Cidade Amiga das Crianças, para a vereadora, a Maia procura desenvolver uma política transversal, valorizando a cultura, o desporto, a participação cívica e as respostas sociais, colocando os direitos, o bem-estar e a participação das crianças e jovens no centro das políticas municipais.

É nesta articulação entre educação, inclusão, participação e cidadania que o Município pretende continuar a construir uma Maia mais qualificada, inclusiva e preparada para o futuro, garantindo a cada criança e jovem condições para aprender, crescer e concretizar o seu potencial, diz Emília Moreira do Santos.
Em paralelo, está em fase final a revisão e atualização da Carta Educativa da Maia, após um amplo processo de auscultação da comunidade educativa, do Conselho Municipal de Educação e das Juntas de Freguesia. O documento deverá entrar em discussão pública ainda este ano, seguindo-se a apreciação e votação pelos órgãos municipais.

Uma grande entrevista, com muitos temas que interessam a todos.

Maia Hoje: Muito obrigado por nos conceder esta entrevista exclusiva, num dos momentos mais importantes do calendário escolar — o início do ano letivo. Começaria assim pelo diagnóstico: que retrato faz hoje da educação na Maia? Quais são os principais pontos fortes e quais as fragilidades que mais a preocupam no início deste ano letivo?

Emília Moreira dos Santos: A Maia tem uma política educativa consolidada, sustentada por um forte compromisso financeiro do Município. As Grandes Opções do Plano para 2026 contemplam uma dotação de 33,6 milhões de euros para a área da Educação, correspondente a 13,8% do orçamento municipal. Devo referir que, além deste investimento, temos já em curso mais de 35 Milhões de Euros acautelados para a requalificação e modernização das infraestruturas Escolares do Concelho, nomeadamente Escolas Básicas e Secundárias, aproveitando as oportunidades, em grande medida, de financiamento comunitário.

É um investimento que abrange uma área muito vasta: escolas, ação social escolar, refeições, transportes, pessoal não docente, atividades de enriquecimento curricular, inclusão, promoção do sucesso educativo e formação profissional. Mas não se trata apenas de garantir o funcionamento da rede educativa. Existe também uma preocupação muito concreta em apoiar as famílias e assegurar que as condições económicas não constituem um obstáculo ao percurso educativo das crianças e dos jovens.

É nesse contexto que se enquadra, por exemplo, a criação excecional do Escalão C para o ano letivo 2026/2027, destinado às famílias posicionadas no 3.º escalão de abono de família. Esta medida permite reforçar o apoio às famílias, nomeadamente no acesso às refeições escolares, contribuindo para reduzir os encargos suportados por quem se encontra numa situação económica menos favorável.

Em suma, estamos a falar de um investimento transversal, que procura responder às diferentes dimensões da Educação e que envolve toda a comunidade educativa. É uma verdadeira rede de respostas que permite que as escolas funcionem, que os alunos tenham melhores condições para aprender, e que as famílias continuem a encontrar no Município um parceiro que lhes ofereça condições para melhor conciliar a sua vida profissional com a familiar

Temos, portanto, uma boa base. Mas não estamos acomodados. A existência de uma rede educativa sólida e de uma capacidade significativa de investimento não significa que não tenhamos desafios pela frente. Continuamos a trabalhar na melhoria das infraestruturas, na promoção do sucesso educativo, na inclusão e na capacidade de responder aos novos desafios das comunidades escolares, entre os quais destaco a multiculturalidade.

O nosso objetivo é muito claro: transformar a capacidade de investimento do Município em melhores oportunidades e melhores resultados para os alunos. E isso implica olhar para a Educação de uma forma integrada, criando oportunidades de aprendizagem, de realização pessoal e felicidade para todos.

Quando falamos de Educação, falamos naturalmente das crianças e dos jovens, mas falamos também das famílias, dos professores, dos educadores, do pessoal não docente e de todos os profissionais que diariamente contribuem para o funcionamento das nossas escolas. Valorizar a Educação significa, por isso, criar melhores condições para todos e garantir que cada criança e cada jovem, independentemente da sua condição social ou económica, possa aprender, crescer e concretizar o seu projeto de vida.

MH: Com a transferência de competências do Governo, onde é que a descentralização está a melhorar a resposta às escolas e onde continua a haver problemas?

EMS: A grande vantagem é a proximidade. O Município conhece melhor as escolas e deveria conseguir responder mais rapidamente aos problemas concretos. Contudo, uma descentralização desta natureza teve um forte impacto na estrutura do Município. De um momento para o outro passámos a ter muito mais responsabilidades, mas também tivemos de absorver um número muito significativo de novos trabalhadores, que transitaram para a Câmara no âmbito da transferência de competências.

Esta mudança representou um esforço muito grande de adaptação da estrutura municipal, não apenas em termos de recursos humanos, mas também de organização, gestão, formação e capacidade financeira, que impactou fortemente de forma transversal na orgânica do Município. Passámos a gerir novas equipas, novos serviços e novas responsabilidades, mantendo simultaneamente todas as competências que já eram do Município.

Nesta medida, descentralizar responsabilidades tem de significar também garantir os recursos necessários. Não estamos a falar apenas de transferir competências no papel. Estamos a falar de pessoas, equipamentos, contratos, serviços e encargos financeiros que passaram efetivamente para a esfera municipal.

Há áreas, como as refeições escolares, em que esta realidade é particularmente evidente. Desde 2022, existe um défice acumulado de financiamento do Estado ao Município da Maia, relativo às refeições escolares, na ordem dos 11 milhões de euros. Ou seja, não é um défice provocado pela gestão municipal das refeições: é a diferença entre os custos efetivamente suportados pelo Município para assegurar este serviço e a comparticipação que o Estado transfere para esse efeito. Logo, é a Câmara Municipal que está a suportar esta diferença com capitais próprios para não sobrecarregar as famílias.

Temos manifestado esta preocupação junto do Governo, que tem compreendido o problema, pelo que espero em breve seja corrigido o valor de comparticipação do Estado nas refeições escolares de todos os níveis de ensino — do pré-escolar ao secundário.

Nós assumimos as competências que recebemos e queremos prestar um serviço de qualidade. Mas entendemos que descentralização não pode significar apenas transferência de encargos. A proximidade é positiva; o financiamento tem de acompanhar as responsabilidades. O Governo tem demonstrado abertura para corrigir este problema deste processo, que vem de governos anteriores. 

Mas quero também sublinhar uma coisa: a política educativa da Maia não se limita às competências que foram transferidas pelo Governo. O Município tem procurado assumir um papel ativo, investindo em áreas que consideramos determinantes para o percurso educativo das crianças e dos jovens.

É essa capacidade de ir além das competências formais que nos permite desenvolver respostas como o PEPPA (Inglês Curricular no primeiro ciclo), reforçar a inclusão, apoiar as famílias, investir na inovação, com o Centro de Inovação Carlos Fiolhais, em parceria com a CDI, em que os jovens alunos do ensino básico e secundário da Maia, gratuitamente, experimentam e trabalham as dimensões das STEAM (competências práticas e intelectuais desenvolvidas através da integração de cinco áreas fundamentais: Ciência, Tecnologia, Engenharia, Artes e Matemática), e melhorar a qualidade das escolas. Quando identificamos uma necessidade concreta, entendemos que o Município deve procurar soluções e mobilizar os parceiros necessários para lhe dar resposta.

MH: A Carta Educativa está em revisão. Para os menos conhecedores da matéria, a Carta Educativa é um instrumento municipal de planeamento e ordenamento que serve para organizar a rede de edifícios, equipamentos e ofertas de ensino no concelho. O que mudou desde 2021 e em que ponto está o processo?

EMS: Mudou muita coisa. Mudaram a demografia, a distribuição dos alunos, as necessidades das famílias e também as exigências colocadas às escolas.

Por isso, estamos a concluir a revisão e atualização da Carta Educativa. O processo está já na fase final.

Fizemos questão de ouvir o território. Já decorreram sessões de auscultação com a comunidade educativa, com os parceiros do Conselho Municipal de Educação e com as Juntas de Freguesia. Esses contributos são muito importantes para cruzar o diagnóstico técnico com a realidade de cada escola e de cada freguesia.

A nossa previsão é que ainda este ano o documento seja colocado em discussão pública. Depois dessa fase, será submetido à apreciação e votação dos órgãos municipais.

Queremos que a nova Carta Educativa seja mais do que um documento de diagnóstico, que seja um verdadeiro instrumento de planeamento para os próximos anos, permitindo ajustar as prioridades da rede escolar e do investimento municipal, com base em informação técnica concreta, resultado do trabalho de uma entidade externa independente, capaz de orientar as decisões do Município. O objetivo é garantir que temos uma rede educativa preparada para responder às mudanças do território e às necessidades das nossas comunidades escolares.

MH: A Maia tem uma oferta muito diversificada de projetos educativos — da Filosofia ao Xadrez, passando pela Inovação Pedagógica e pelas Ciências. Mas há um projeto que já aludiu e se destaca pela sua singularidade no país: o PEPPA (Primary English Practice Programme for Ages 6-7), que permite aos alunos do 1.º e 2.º anos terem inglês. Como é que o Município conseguiu concretizar uma solução que não existe noutros concelhos?

EMS: O PEPPA nasceu de uma preocupação muito concreta: não queríamos que existisse um vazio entre o contacto com o inglês que as crianças já tinham no pré-escolar e a entrada no ensino curricular do inglês, que acontece no 3.º ano.

Na Maia, desde 2018, temos o LUDI+, que inclui o PlayEnglish no pré-escolar, precisamente para proporcionar às crianças um primeiro contacto com a língua inglesa. Quando o Ministério da Educação introduziu a obrigatoriedade do Inglês a partir do 3.º ano, percebemos que passaria a existir uma lacuna no 1.º e 2.º anos, e que se impunha resolver no sentido de criar uma continuidade.

Foi aí que lançámos o PEPPA, em articulação com a Escola Superior de Educação do Politécnico do Porto. A Câmara financiou a conceção e acompanhamento pedagógico do programa, a formação dos professores e a sua monitorização. Mas havia uma peça fundamental: precisávamos do Ministério da Educação para disponibilizar os créditos horários e os professores do grupo de recrutamento 120.

Fomos, portanto, bater à porta do Ministério. Apresentámos o projeto, demonstrámos a sua pertinência e temos conseguido, ano após ano, que sejam atribuídos os créditos horários necessários, por cumprirmos critérios exigentes. Os agrupamentos de escolas também estão envolvidos desde o início.

Foi essa articulação que permitiu transformar uma iniciativa municipal num projeto integrado no funcionamento das escolas. E há aqui uma ideia que considero muito importante: um município não precisa de ter todas as competências formais para ser capaz de inovar na educação. Pode identificar uma necessidade, mobilizar parceiros, criar uma solução e procurar junto da Administração Central as condições para a concretizar. Foi isso que aconteceu com o PEPPA.

Hoje temos sessões semanais de inglês de 60 minutos nos 1.º e 2.º anos, lecionadas por professores do grupo 120 em coadjuvação com os professores titulares. E o projeto tem uma base pedagógica própria e acompanhamento especializado.

Para mim, este é um bom exemplo daquilo que queremos que seja a política educativa municipal: não substituir a escola nem o Ministério da Educação, mas identificar necessidades, experimentar soluções, criar conhecimento e mobilizar parceiros para melhorar as oportunidades das crianças.

MH: E por que razão é que esta experiência da Maia não foi, entretanto, generalizada a outros municípios do país?

EMS: Essa é uma questão que também deve ser colocada, sobretudo, à Administração Central.

Nós demonstrámos que é possível fazer. Construímos o modelo, envolvemos instituições de ensino superior, mobilizámos os agrupamentos e conseguimos a articulação com o Ministério da Educação, mas uma solução desta natureza depende de uma decisão nacional sobre a organização curricular e sobre os recursos humanos necessários.

Enquanto Município, podemos continuar a mostrar que funciona e a defender a sua continuidade. Mas não podemos transformar uma iniciativa municipal num modelo nacional sem que exista uma decisão do Ministério.

O que me parece mais importante é que a experiência da Maia possa servir de demonstração de que o contacto mais precoce com uma língua estrangeira é possível e pode ser organizado com qualidade pedagógica.

MH: Em que nível de ensino entende que a Maia ainda tem de fazer melhor?

EMS: O ensino secundário merece uma atenção especial. É uma fase em que os percursos se tornam mais diversificados e em que podem surgir situações de retenção, absentismo ou abandono com consequências importantes para o futuro dos jovens, mas temos de olhar para os números e perceber o que está por detrás deles.

É também por isso que apostamos na diversificação das respostas, nomeadamente através da formação profissional. Nem todos os jovens têm de seguir o mesmo percurso; todos têm é de ter acesso a um percurso de qualificação com futuro, que vá ao encontro da realização pessoal de cada um.

Essa diversificação começa muito antes do ensino secundário. Na Maia temos procurado proporcionar às crianças e aos jovens experiências e ferramentas que complementem a resposta curricular, através de projetos, que muito bem referiu vão da inovação pedagógica, à ciência, passando pela filosofia, xadrez, música, desporto e relaxamento, ciências criativas, línguas e outras áreas que contribuem para uma formação mais completa.

Temos também uma preocupação crescente com a literacia digital, a inovação e a preparação para as competências de que os jovens vão precisar no futuro.

A nossa responsabilidade é criar um ecossistema educativo diversificado, inclusivo e estimulante, que acompanhe cada aluno ao longo do seu percurso.

MH: O novo Campus de Formação Profissional pode mudar a relação entre formação, empresas e emprego?

EMS: É uma das apostas estratégicas da Maia.

Em 2023/24, tínhamos mais de 670 alunos em cursos profissionais, num universo de mais de 3.800 alunos do ensino secundário. Queremos reforçar essa oferta e, sobretudo, aproximá-la das necessidades das empresas.

O novo Campus de Formação Profissional, no Castêlo da Maia, que soubemos atrair para a Maia, é uma oportunidade criada pelo IEFP para fazer essa ligação de forma mais forte: formação, empresas, inovação e emprego.

A Maia tem um tecido empresarial muito relevante e queremos que os jovens possam encontrar aqui percursos de qualificação que correspondam às suas capacidades e às oportunidades existentes no mercado de trabalho.

O objetivo é criar uma verdadeira ponte entre a escola e o emprego, com uma oferta formativa elástica, que permita um ajuste permanente às necessidades do tecido empresarial e da procura dos jovens.

MH: Os transportes têm sido identificados como uma dificuldade, sobretudo para quem frequenta o ensino profissional. O que pode ser feito?

EMS: É uma preocupação que se torna ainda mais importante com a abertura do Campus de Formação Profissional.

Internamente temos uma equipa de trabalho dedicada a estudar a melhoria da rede de transportes públicos e escolares, com particular atenção aos alunos do ensino profissional e com necessidades especiais de saúde.

Temos de garantir que a localização dos equipamentos não constitui uma barreira à frequência dos cursos. Isso implica olhar para horários, ligações, percursos e articulação entre os diferentes meios de transporte.

A mobilidade também é uma política educativa.

Ainda recentemente auscultámos os Agrupamentos de Escolas e identificámos à Área Metropolitana do Porto, que é a autoridade de transportes, as necessidades de alguns ajustes aos horários dos transportes públicos, para corresponder aos horários escolares.

MH: Está também em discussão uma possível reorganização e fusão de ciclos de ensino. Que riscos pode essa mudança representar para os municípios, nomeadamente do ponto de vista económico e financeiro?

EMS: É uma questão que devemos acompanhar com muita atenção. Qualquer alteração à organização dos ciclos de ensino tem consequências que vão muito para além da organização pedagógica. Tem impactos na rede escolar, nas infraestruturas, nos transportes, nos refeitórios, nos equipamentos, no pessoal e na própria capacidade de resposta dos municípios.

Não podemos partir do princípio de que uma alteração administrativa ou pedagógica se faz sem custos. Se houver uma fusão de ciclos, poderemos ter de adaptar edifícios, criar ou redimensionar espaços, alterar circuitos de transporte, reorganizar refeitórios e adaptar equipamentos e recursos humanos. Em alguns casos, isso poderá significar investimentos muito significativos.

Há, por isso, um risco económico e financeiro que não pode ser ignorado. Os municípios estão hoje a assumir responsabilidades muito maiores na área da Educação e não podemos acrescentar novas obrigações sem avaliar previamente os impactos financeiros e sem garantir os meios necessários para lhes dar resposta.

Uma alteração desta dimensão deve ser precedida de planeamento, diagnóstico e avaliação das necessidades de cada território. A realidade de um município não é necessariamente a realidade de outro.

Na Maia, é precisamente isso que estamos a fazer através da revisão da Carta Educativa. Precisamos de saber quantos alunos teremos, onde estarão, que capacidade têm atualmente as escolas e que adaptações serão necessárias. Só com essa informação podemos tomar decisões responsáveis sobre a rede escolar e sobre o investimento público. E há uma questão que considero fundamental: não podemos correr o risco de fazer investimentos avultados para adaptar uma rede escolar a um determinado modelo e, poucos anos depois, ter de voltar a investir porque o modelo mudou novamente.

Os municípios precisam de estabilidade e previsibilidade para planear. A Educação é um investimento de longo prazo e as decisões sobre a rede escolar têm de ser tomadas com essa perspetiva. Não podemos transferir para os municípios o risco financeiro de decisões que são tomadas a nível nacional.

Estamos disponíveis para colaborar e para encontrar as melhores soluções. Mas colaboração não pode significar assumir responsabilidades financeiras sem que exista uma avaliação rigorosa dos custos e sem que os respetivos recursos acompanhem as novas responsabilidades.

MH: Quais são hoje as escolas que precisam de intervenção mais urgente?

EMS: As prioridades são definidas através de diagnóstico técnico, tendo em conta o estado de conservação, segurança, acessibilidade, eficiência energética e necessidades da população escolar.

Mas hoje esse planeamento é ainda mais importante. Quando falamos de requalificar ou ampliar uma escola, estamos a falar de investimentos públicos de grande dimensão e que têm de ser pensados para várias décadas. Não podemos decidir apenas em função das necessidades de hoje; temos de antecipar a evolução demográfica, a organização dos ciclos e as futuras necessidades da população escolar.

É precisamente por isso que a revisão da Carta Educativa é tão importante. Queremos que as decisões sobre a rede escolar sejam sustentadas em informação técnica, e não em decisões avulsas ou de curto prazo.

No domínio do 2.º, 3.º ciclo e secundário, estamos a concluir a 1.ª fase da requalificação e ampliação da EBS Vieira de Carvalho, e temos em fase adiantada – prontos para lançar os concursos públicos ao mercado – intervenções previstas na EB 2/3 do Castêlo da Maia e na EBS de Pedrouços, para as quais aguardamos, a todo o momento, a aprovação das candidaturas que apresentámos a financiamento europeu. Temos também o projeto pronto para a requalificação integral e ampliação da EBS do Levante, e para a qual também vamos apresentar candidatura a financiamento europeu.

No domínio do pré-escolar, iremos a breve prazo, iniciar as obras em Moutidos, Águas Santas, e no JI da Maia. No primeiro ciclo já concluímos a intervenção na EB Maia Estação, estamos a intervir na EB Maia, melhorando substancialmente as infraestruturas da escola, e no Centro Escolar da Gandra, com os “Recreios que Cuidam”.

Temos uma rede extensa e edifícios com idades diferentes. Por isso, o objetivo é manter uma política continuada de requalificação, e não apenas responder a situações de emergência.

Pese embora aguardemos o resultado das necessidades que a Carta Educativa vai apresentar, perspetivamos que, pelo menos em Águas Santas, na Cidade da Maia e em Moreira, haja necessidade de aumento da oferta pública de pré-escolar, primeiro e segundo ciclo.

Temos já localizações estudadas para esse efeito, e estou certa de que a comunidade será parceira ativa para a resolução destes problemas, que decorrem da forte atratividade que o Concelho tem evidenciada pela muita procura de habitação decorrente da qualidade de vida que a Maia disponibiliza.

Uma escola deve oferecer boas condições não apenas para funcionar, mas para aprender, ensinar e conviver. E quando fazemos um investimento desta natureza, temos de garantir que ele responde às necessidades da comunidade durante muitos anos.

MH: A Maia tem pessoal não docente suficiente e preparado para responder à crescente complexidade das necessidades dos alunos?

EMS: As necessidades mudaram e o papel do pessoal não docente também.

Hoje as escolas enfrentam desafios cada vez mais complexos na área da inclusão, do comportamento, da saúde e do bem-estar emocional, exigindo respostas especializadas e um acompanhamento adequado.

Temos investido na formação dos assistentes operacionais, incluindo formação especializada na área da inclusão, mas é uma matéria que não podemos considerar encerrada. Se é verdade que precisamos de pessoas suficientes — e recordo que temos em curso concursos públicos com bolsas de recrutamento que nos permitem efetuar as substituições de forma mais ágil — também precisamos de pessoas qualificadas para responder às novas realidades das escolas. Daí estarmos a investir na qualificação da na qualificação da nossa equipa de pessoal não docente, particularmente na área dos alunos com necessidades especiais de saúde.

MH: Que avaliação faz do serviço de refeições escolares?

EMS: A alimentação escolar é uma questão de saúde, mas também de igualdade de oportunidades, garantindo que todas as crianças e jovens tem as condições necessárias para aprender e crescer.

O Município acompanha e fiscaliza regularmente os refeitórios, avaliando as condições de confeção, higiene, temperaturas e qualidade das ementas.

Mas queremos ir mais longe. Temos de olhar também para a aceitação das refeições pelos alunos e para o desperdício. É por isso que temos desenvolvido projetos de educação alimentar, como o “Maia Menu Saudável”.

Existem naturalmente situações que podem ser melhoradas, mas temos mecanismos de acompanhamento e correção. A qualidade da refeição escolar é uma preocupação permanente. Daí frequentemente ir almoçar às escolas, sem aviso, para perceber o que pode efetivamente melhorar.
MH: Face ao aumento do custo de vida, os atuais apoios da ação social escolar são suficientes?

EMS: O princípio é garantir que nenhuma criança e jovem deixa de ter as mesmas oportunidades por razões económicas.

A Câmara assegura apoios nas refeições, material escolar, cadernos de atividades, visitas de estudo e outras respostas, de acordo com os escalões definidos.

Mas temos de acompanhar a realidade das famílias. Existem agregados que podem não estar nos escalões mais baixos e que, ainda assim, enfrentam dificuldades.

Por isso, a ação social escolar tem de ser permanentemente avaliada. Temos de perceber se os critérios continuam adequados e quem pode estar a ficar de fora. Daí estarmos a ir mais além com a criação do escalão C para chegar a mais famílias que também necessitam deste apoio.

O objetivo é simples: a condição económica da família não pode determinar as oportunidades educativas de uma criança.

MH: O Município prevê 33,7 milhões de euros para a Educação em 2026. No final do ano letivo 2026/27, que resultados gostaria de apresentar aos maiatos?

EMS: Os 33,7 milhões de euros previstos para a Educação em 2026, dos quais 6,185 milhões correspondem a investimento no Plano Plurianual de Investimentos, representam um esforço financeiro muito significativo. Naturalmente, temos de conseguir demonstrar o impacto desse investimento.

Gostaria de chegar ao final do ano letivo com quatro resultados: sucesso educativo, mais competências e melhores aprendizagens para preparar os nossos jovens para os desafios do futuro, melhores respostas ao nível da inclusão, e melhores condições nas escolas — nos edifícios, nas refeições, nos transportes e no apoio às famílias.

Mas temos de ser rigorosos: nem todos os resultados educativos dependem do Município. Dependem também das escolas, dos professores, das famílias, dos alunos e das políticas nacionais.

Estou tranquila porque conheço bem a nossa comunidade educativa e o empenho que todos colocam diariamente em prol da qualidade educativa no nosso Concelho. Temos professores, educadores e profissionais de enorme competência e um movimento parental, através das associações de pais e da FAPEMAIA, exigente, mas que contribui positivamente para a melhoria contínua da educação na Maia, porque o nosso propósito é educar gerações com futuro. Na Maia todos contam.

O que podemos assumir é a nossa responsabilidade. E se uma medida não produzir os resultados esperados, temos de ter a humildade para a corrigir.

Uma política educativa não deve ser avaliada pelo número de iniciativas que realiza, mas pelo impacto que tem na vida dos alunos.

MH: Depois de vários anos à frente do pelouro, qual é hoje o problema da educação na Maia que mais gostaria de resolver, mas que percebeu ser mais difícil do que inicialmente imaginava?

EMS: Talvez o mais difícil seja perceber que os problemas da Educação não se resolvem apenas com aquilo que um Município pode fazer. A Educação exige tempo, proximidade e uma resposta conjunta da escola, das famílias, dos alunos, dos profissionais, das instituições e da própria Administração Central.

É relativamente fácil anunciar uma medida ou inaugurar uma obra. Mais difícil é garantir, todos os dias, que uma criança tem as mesmas oportunidades, que um jovem encontra na escola um caminho para o seu futuro e que nenhuma família fica para trás.

É por isso que, na Maia, não nos limitamos às competências que foram transferidas para os municípios. Assumimos a Educação como uma prioridade estratégica e investimos para além das nossas responsabilidades formais, porque entendemos que investir na Educação é investir no futuro da Maia. O que mais me motiva é proporcionar uma resposta mais robusta para as crianças e jovens com necessidades específicas de saúde e as suas famílias. Conheço as dificuldades que estas famílias enfrentam pelo que o reforço neste domínio é uma prioridade institucional e pessoal minha com estas famílias que, mais do que palavras, precisam de uma ajuda efetiva e de escolas que não as rejeitem. 

Entendemos que nenhum investimento público substitui as pessoas. E quero deixar uma palavra de reconhecimento a todos os que fazem diariamente a Educação na Maia: professores, educadores, assistentes operacionais, técnicos, diretores, associações de pais, famílias e, naturalmente, os nossos alunos.

O início de um novo ano letivo é sempre um momento de renovação. Há crianças que entram pela primeira vez na escola, jovens que iniciam uma nova etapa e famílias que confiam na nossa comunidade educativa. A nossa responsabilidade é estar à altura dessa confiança.

Queremos escolas onde se aprenda mais e melhor, onde cada criança e cada jovem se sinta incluído, acompanhado e valorizado, e onde existam condições para que cada um possa construir o seu próprio projeto de vida. Ser feliz.

É esse o compromisso da Maia: trabalhar todos os dias para construir gerações com futuro. Porque, na Educação, todos contam.

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